Recém-empossado reitor da Universidade Estadual de Campinas, Paulo Cesar Montagner tem planos de crescimento para a Unicamp. Em entrevista ao Estadão, ele disse que pretende fortalecer a internacionalização dos professores, servidores e alunos da universidade, especialmente com países africanos, asiáticos e latino-americanos.
“É importante que tenhamos professores e pesquisadores que sejam capazes também de conversar com o mundo.”
A perspectiva de ampliação também é estrutural, com a oferta de novos cursos na graduação – dentre eles, o de Direito, que será aberto pela primeira vez na universidade – a ampliação da política de cotas, com vagas no vestibular para pessoas trans e travestis, além dos programa de permanência.
“Nesse momento, a Unicamp está comprando um terreno contíguo à atual moradia estudantil, para melhorar as condições de moradia dos nossos estudantes aqui”, explicou.
Veja a entrevista:
Qual será o foco da sua gestão nos próximos quatro anos na Unicamp?
Agora, temos especificamente três focos. O primeiro deles é a defesa irrestrita da universidade pública gratuita, dotada de autonomia acadêmica e administrativa. A gente tem uma universidade hoje que tem resultados expressivos no campo da pesquisa, do ensino, no campo da extensão universitária, na área da saúde.
A segunda questão fundamental é a reforma tributária. Ela requer não só da Unicamp, mas também da Unesp e da USP, uma atenção e uma conversa permanente com os nossos governos, porque a universidade tem uma vida muito dedicada ao seu financiamento baseado no ICMS, que é uma rubrica que será substituída pelo IBS, e o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo (Cruesp), como um órgão orgânico das universidades paulistas, já desde 2022, 2023 vem discutindo isso. Encaminhamos um documento ao Estado tentando fazer uma defesa da permanência de duas características: a preservação da porcentualização do nosso financiamento e a constitucionalização do nosso dinheiro.
E a terceira questão é continuar o nosso forte projeto de internacionalização, envolvendo todas as nossas áreas, nossos cursos, e fazendo disso também um processo de internacionalização, não só dos professores e pesquisadores, mas também dos nossos servidores e estudantes. É importante que tenhamos professores e pesquisadores que sejam capazes também de conversar com o mundo. Queremos ter parcerias estratégicas com ênfase na cooperação Sul-Sul: América Latina, África, Ásia
Além disso, hoje temos discussões muito significativas na pauta da universidade: criarmos alguns cursos novos e ampliarmos vagas de graduação, fortalecer nossos programas de pós-graduação e de pesquisa em cima de alguns pilares, nós estamos vivendo um processo de inteligência artificial, e também fortalecer programas que permitam os nossos alunos a poderem estudar bem, os programas de permanência e apoio estudantil.

Por que a discussão com o governo a respeito da reforma tributária está focando na porcentualização do financiamento e na sua constitucionalização?
A porcentualização que permitiu que a Unicamp, USP e Unesp conseguissem crescer junto com os impostos sobre o ICMS. Os nossos números são bastante significativos em crescimento de estudantes, de pesquisas, de trabalhos publicados, de investimento em pessoal, de diferentes áreas da sociedade. E, gostaríamos da constitucionalização desse recurso nos moldes da Fapesp, porque hoje nosso recurso vem através de um decreto anual assinado pelo governador, e tem sido mantido de financiamento público, dos 9,57% (do ICMS) para as universidades, que se diluem entre USP, Unicamp e Unesp.
As universidades paulistas já tiveram alguma sinalização do governo nessa discussão?
Não há nenhum movimento concreto ainda de mudança nisso, mas a gente estima que os próximos quatro anos serão importantes para essas discussões no interior do País, né? Entre as discussões dos estados e como vão ficar os recursos para os estados, né? Porque vai ser uma distribuição em nível nacional e depois dentro do nosso Estado. Então, esse grupo de trabalho, ele ficou no final de 2023, no ano de 2024, debruçado sobre isso. São especialistas que fizeram uma proposta, né? Eles pegam a base do ICMS e, ao pegar a base do ICMS, eles levam esse valor para o IBS e chegam à situação atual, que é exatamente o mesmo que a gente tem. Nós não temos nenhuma notícia de natureza formal de que o governo do estado disse que vai diminuir as ervas das universidades. Pelo contrário, o governador tem sido bastante recolhido, ele tem sido uma pessoa que reconhece o trabalho das universidades públicas paulistas e tem dito isso, então, a gente espera que isso represente para nós uma garantia, porque a autonomia universitária foi uma grande conquista. Dados da Fapesp mostram o que aconteceu com as três universidades públicas paulistas no momento da autonomia universitária: o volume de produção científica, de crescimento, de consistência intelectual, de pesquisa (cresceu). A importância do financiamento é ele que garante autonomia e que a gente possa fazer planejamentos de longo prazo. A preservação desse modelo de financiamento é fundamental para a nossa, vamos dizer assim, estrutura de desenvolvimento de pesquisa.
Há alguma previsão para ampliação dos programas de apoio à permanência mencionados?
Temos um programa de permanência muito robusto. Na última gestão, dobramos de R$ 80 milhões para R$ 160 milhões esse programa de permanência. Não é só moradia, mas são as melhores condições de bolsas, de estudo, de alimentação. São programas que estamos estudando com muita força para o aperfeiçoamento. Nesse momento, a Unicamp está comprando um terreno contíguo à atual moradia estudantil, para melhorar as condições de moradia dos nossos estudantes aqui.
Esse terreno vai ampliar as vagas de moradia da Unicamp?
A gente tem condição de fazer ampliação e, ao mesmo tempo, com essa ampliação, a gente tem condição de reformar um pouco a moradia antiga e fazer necessárias reparações nas casas que são muito antigas e também necessitam de reforma. Precisa fazer um equilíbrio, porque se você tira os alunos, você não tem onde colocar. É um projeto bastante ousado de crescimento.
Essa ampliação da moradia será no campus de Campinas? Quantas vagas a mais serão criadas?
Sim. Nos outros campos nossos, temos programas de apoio à moradia, com bolsas. Não temos o número de vagas, a gente está estudando ainda, é um terreno bastante grande. Hoje, temos perto de 1 mil vagas de moradia estudantil, mas a gente percebe que esse número já não é mais suficiente. Ele é o número de origem de quando a universidade fez o programa nos anos 1990. De lá para cá, temos hoje perto de 17 mil, 18 mil estudantes de graduação. Crescemos muito, e com os programas de inclusão que temos, (as vagas de moradia) acabaram se mostrando necessárias. O ideal seria pensar em elevar esse nível para um número bastante significativo. São os estudos que nós vamos fazer agora. Após a compra do terreno, terá uma larga discussão interna aqui com a comunidade.
A Unicamp anunciou recentemente quatro novos cursos – Direito, Fisioterapia, Licenciatura em Inglês e História noturno. Quando eles serão abertos? Há planejamento para mais cursos além desses?
O desafio de ampliar a graduação é um desafio importantíssimo do nosso programa. O curso de Fisioterapia já foi aprovado na Faculdade de Ciências Médicas, uma escola bastante consolidada nossa e onde nós temos uma forte área de saúde, com hospital escola. Os cursos de História e Licenciatura em Inglês são cursos importantes também no nosso Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, que é uma escola consagrada. E nós tomamos a decisão de ter um curso de Direito na Unicamp. Agora nós teremos um grupo de trabalho que vai se debruçar para definir a melhor condição para esse curso. Um grupo em Campinas gostaria muito de que ele fosse aqui, e um grupo em Limeira gostaria que o curso fosse por lá também. É uma disputa que vai acontecer aqui internamente. Temos que ter uma discussão madura sobre isso. O importante é que teremos um curso de Direito, que é algo que a Universidade Estadual de Campinas nunca teve. Teremos também algumas vagas novas em alguns cursos já existentes.
O curso de Direito era muito solicitado. O que já está definido sobre ele?
Era solicitado, tem muita concorrência, e agora a gente está estudando qual seria o perfil desse nosso curso de Direito. Nós temos que nos alinhar às grandes perspectivas internacionais de cursos que discutam o meio ambiente, a sustentabilidade do País, as emergências climáticas, a internacionalização das universidades. São cenários novos que poderão permear o perfil de formação dos nossos cursos. Só dei alguns exemplos, por certo devem ter mais, porque nós temos cursos de Direito muito clássicos também, que são especializados em determinadas áreas. E eu tenho muita confiança no nosso pessoal aqui, porque as pessoas estão sempre na ponta do conhecimento, nas diferentes áreas.
A Unicamp tem interesse em criar novos câmpus futuramente?
Não, o que nós queremos é fortalecer os nossos campos externos, que estão em Limeira e Piracicaba. E queremos que eles se tornem campos multicêntricos também. Nós queremos fazer investimentos fortes em Limeira e Piracicaba. Em Limeira, hoje, nós temos lá dois campos, um com uma faculdade de tecnologia e um colégio técnico, e um outro campus do lado onde foi criada a Faculdade de Ciências Aplicadas. Mas temos muitos espaços. Então, por exemplo, lá vamos fazer um investimento da ordem de R$ 135 milhões com um novo prédio e um novo ginásio de esportes, porque lá temos um curso de ciências do esporte de muito boa qualidade, e queremos que esse projeto do ginásio, que, na verdade, não é nem um ginásio de esportes convencional, mas ele é um centro de inovação e pesquisa e ensino na área de ciência do esporte, ele impulsiona a pesquisa nessa área também lá. E em Piracicaba também tem uma discussão da comunidade que é (sobre a criação de) um curso de Medicina lá. Fazer um curso de Medicina não é barato, precisa de suporte financeiro. Esses cursos novos que estamos fazendo partem de uma lógica que o nosso orçamento, o nosso plano de desenvolvimento, permite absorvê-los dentro do nosso próprio orçamento.
E esse curso de Medicina em Piracicaba sairá do papel?
O curso de Medicina já é um curso um pouco mais complexo, pede um hospital-escola, uma série de variáveis. Por isso mesmo ainda não existe plano de um curso de Medicina em Piracicaba. Existem especulações, existiram algumas conversas, mas estamos nessa fase. Não somos contra nenhuma possibilidade desde que tenhamos condições financeiras de fazer isso com equilíbrio. Porque não adianta crescer e desequilibrar o que a gente tem, porque daí você fica manco. Para isso é necessário que esse percentual (da destinação de impostos) seja preservado, porque quando cresce o imposto, crescem também os recursos que chegam à universidade.
A Unicamp recentemente aprovou as cotas trans e isso gerou uma grande polêmica. Como o senhor enxerga essa situação?
Reconheço que é um assunto polêmico, ele está batendo à nossa porta todos os dias. Assim que isso aconteceu, ocorreram muitas manifestações em vários grupos, não só internos da universidade, mas também de políticos, de pensadores, com argumentos de defesa e argumentos de apoio. Não é um assunto novo na Unicamp, ele vem à pauta já desde algum tempo, desde uma grande greve em 2016. A universidade é uma panela de pressão e fica permanentemente em ebulição. A Unicamp construiu as cotas formalmente para pretos e pardos em 2017, depois tivemos as cotas indígenas, e as cotas trans é mais uma delas, é mais um desses desafios. Vejam, não estamos tirando vagas de ninguém, pelo contrário, cursos que têm até 30 vagas poderão ter uma nova vaga (para pessoas trans), e de 30 acima poderão ter até duas novas vagas. Mas não nos esqueçamos que também tem uma relação de mérito nisso, existe um processo seletivo dentro dessas cotas, que garante condições de competitividade a todas as pessoas da sociedade. E só para reafirmar, nós não somos a primeira universidade que fez isso, existem mais de 10 universidades, acho que a maioria delas são federais. É um projeto que a universidade resolveu encampar, e que o conselho universitário decidiu apoiar.
Eu penso exatamente que nesse momento, como reitor, é necessário respeitar a decisão do conselho universitário, e que isso possa ter um efeito positivo, assim como nas outras decisões de inclusão que tomamos. É importante dizer que já temos alunos com esse perfil dentro das universidades brasileiras, então não é uma coisa nova também. Mas é isso, nessa panela de pressão, é como se a gente tivesse condição de dar vazão a uma certa coisa que existe dentro do mundo contemporâneo, é como se, pela universidade ser um farol da sociedade, ela também tem que olhar para isso com o devido cuidado que temas dessa natureza permeiam a discussão social.
As universidades estaduais paulistas carregam um legado de inovação para todo o País, inclusive se destacando em vários rankings globais. O que se pode esperar da Unicamp em termos de inovação nos próximos anos?
Nós temos várias estruturas de pesquisa. Nós temos o laboratório do DUNE, que está trabalhando com neutrinos. Temos também um outro programa que está trabalhando na Amazônia com análise de oxigênio. Mas eu acho que o nosso grande patrimônio na área de inovação é o HUB Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS), um programa que vai construir sinergias entre o parque científico-tecnológico e a universidade, o meio ambiente local, as instituições locais. É um hub de inteligência e desenvolvimento sustentável, um projeto inovador em relação a desenvolvimento de ciência, de pesquisa, de ensino, de toda a relação que a universidade tem com projetos de natureza sustentável. Nós estamos construindo nesse momento uma vila de startups lá com essa natureza sustentável, já está sendo um projeto financiado pela FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). E nós também estamos fazendo fortes investimentos na área de inovação social também.
O HIDS será em Campinas? É uma vila de startups? E quando irá inaugurar?
Sim, compramos um terreno contíguo à universidade. A vila de startups é o primeiro grande projeto de lá, mas vai além. Queremos trazer outros grandes financiadores que se alinhem a essa concepção de inovação tecnológica com sustentabilidade a partir dessa relação muito importante que a universidade construiu. O prazo para essa vila de startups naquela área esperamos que em dois anos a gente inaugure esse prédio.